O artigo abaixo foi publicado no site www.diretodaredacao.com
PARTICIPAÇÃO ZERO
Por Claudio Lessa
As inacreditáveis manifestações do mensaleiro-mor da República de “abatimento” ao saber da prisão do governador José Roberto Panetone Arruda, de “choque” ao ver as imagens de maços de dinheiro trocando de mãos e a recomendação expressa de que o mensaleiro-júnior não sofresse qualquer tipo de constrangimento depois de decretada sua prisão preventiva pelo STJ, mais do que qualquer outra coisa, dão o tom calhorda do cinismo, da impunidade e do espírito associativo da máfia que tomou conta da Praça dos 3 Poderes.
Não importa o partido, não importa a orientação ideológica. Como disseram numa emissora de rádio outro dia, toda essa corja possui o mesmo DNA. Um sente a dor do outro. Semana passada, escrevi sobre a necessidade urgente, urgentíssima, de um aperfeçoamento básico do sistema democrático brasileiro – o “recall” dos representantes eleitos. Estendi a exigência do “recall” para os membros do Judiciário (que passariam, em boa parte, a ser eleitos também e, portanto, sujeitos à medida).
Essa providência democrática, somada a outras que muitos de vocês possam ter, tem como objetivo inserir – eu não diria re-inserir, de forma alguma – a opinião pública, o povo, o eleitor no sistema. Há muito tempo o povo deixou de ter conexão com o chamado “sistema democrático”. Sua única participação, decorativa, se limita ao rito do voto, quando todos, obrigados, formam fila e se dirigem às cabines eletrônicas (também alvo de suspeitas cada vez maiores) para a escolha de seus representantes. No Brasil, esse “gap” é cada vez maior, mais evidente, prejudicial e doloroso para toda a sociedade.
A prisão de José Roberto Panetone Arruda ocorreu não por causa do treminhão de provas (escritas e em vídeo) contra ele e seus asseclas – provas que, ao que se informa, se estendem ao reinado do “Homem do Bezerro de Ouro”, Joaquim Roriz e, por isso mesmo, deveriam render cadeia não só para os de hoje, mas para os de ontem, também. O Rei do Panetone foi preso porque estava interferindo, pura e simplesmente, nas investigações. Foi preso também porque seu nível de escárnio diante dos acontecimentos, por palavras e obras, superou o tolerável para algumas autoridades que, mesmo possivelmente contaminadas em outras instâncias, desejam manter um nível mínimo de decoro que deve existir até mesmo entre os criminosos.
Dentro desse quadro de criminalidade desbragada, é mais do que natural que Lulla se declare “abatido” com a prisão de Arruda. Afinal, ao contrário de suas expectativas – ainda que seus dois mandatos estejam sobrecarregados de corrupção – “algema”, “prisão”, “cadeia” e outros verbetes relacionados são considerados altamente constrangedores e causadores de pânico. A malta que tomou conta de Brasília nos últimos 8 anos simplesmente procurou superar os recordes olímpicos das administrações anteriores e, como as outras, cair fora incólume, nada mais que isso.
Em tempo: as algemas, mais do que simples preventivo de segurança para a polícia, são também, sim, uma humilhação pública e têm que ser usadas em todos os que caem nas garras da lei, indiscriminadamente. Se o Rei do Panetone – considerado por Gilmar Dantas e outras cabeças coroadas da corrupção “dessepaiz” como não merecedor de usar algemas – não quisesse passar pelo constrangimento, muito simples: era só não se meter em falcatruas. No entanto, como a regra básica da máfia é um cobrir o traseiro do outro…