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João Hélio, Ezequiel e o Ódio
Feb 22nd, 2010 by claudio lessa

O artigo abaixo é de Maristela Bairros, e foi publicado no site coletiva.net

Ódio: como evitar?

“Não odeie, querido. Ódio é uma palavra muito forte”. Adorável esta frase, proferida com inigualável cinismo, por Kathleen Turner na cena de abertura de “Serial Mom” . Para quem esqueceu ou não viu, trata-se daquela comédia de John Waters que exibe uma mãe “de comercial de margarina” que se revela uma psicopata capaz de se divertir até dizendo obscenidades ao telefone enquanto mantém a pose.

A recomendação de Beverly, a personagem, é dada em meio ao café matinal, enquanto a família (ela, o marido e um casal de filhos) comenta um assassinato noticiado no jornal.

De fato. A frase “eu odeio” é pesada, cruel como poucas capazes de expressar um estado humano de insatisfação. Animais não odeiam, eles brigam, se matam até, mas não odeiam, ao menos é o que dizem os experts e eu acredito. Já quando alguém afirma que está com ódio, o clima é perceptível à distância. Aquela onda emitida a partir deste sentimento vai envolvendo o ambiente e quem nele está, e não precisa nem haver um assassinato, como no filme, para ele ocorrer de fato: o ódio mata por si só.

Não odiar é tão fundamental para o equilíbrio da vida quanto respirar e Deus cochilou ao esquecer de incluir esta lei em sua táboa dos 10 mandamentos. Se tivesse sido mais específico, mesmo correndo o risco de ver a gentalha guiada por Moisés construir bezerros de ouro na primeira dificuldade, o Todo-Poderoso houvesse evitado tanta desgraceira.

Em 2007, o garotinho João Hélio entrou na vida de cada brasileiro ao ser morto enquanto era arrastado por quilômetros, preso à cadeirinha de segurança do carro de sua mãe que fora assaltada por um grupo de marginais. Ele tinha seis anos de idade. Um dos assaltantes tinha 17 anos e já então todos ficaram sabendo que, logo, ele estaria livre. A libertação, atendendo à lei brasileira, se deu no dia 10 último. Com direito a programa de proteção sob os auspícios do governo em colaboração com a ong Projeto Legal.

Tem de ter muita força espiritual, nessa hora, para evitar o nefando sentimento de ódio (que ronda qualquer um que tenha uma pontinha de sensibilidade) em relação a um matador de inocente ganhar as ruas e direito de “repensar sua vida” enquanto os familiares de sua vítima carregam, sem solução, a dor desta perda. E ninguém pode fazer nada para evitar esse absurdo.

Convém evitar o ódio a Ezequiel Toledo Lima, hoje com 19 anos, assassino confesso, envolvido em episódio de agressão durante sua detenção, que está protegido em lugar não revelado por, segundo a tal ong, correr risco de morte. Humano, falível, vítima de condições inadequadas de existência, dirão seus defensores. Mas conseguirão estes defensores ser tão cínicos a ponto de sobrepor a miséria de Ezequiel, o matador amparado, à saudade dos pais de João Hélio?

Sem ódio, mas, com santa indignação, deveriam todos os pais deste Brasil se mexer para evitar que uma lei torta continue premiando os bandidos e punindo duas vezes suas vítimas. Se a noção de certo e errado, justo e injusta for perdida neste país sem controle de nada, em breve se estará fazendo o que fizeram os roqueiros de “Serial Mom”, confirmando a dona de casa assassina como ídolo.

Reflexão Tardia
Feb 22nd, 2010 by claudio lessa

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Deu no Direto da Redação
Feb 22nd, 2010 by claudio lessa

O artigo abaixo foi publicado em 21 fev 2010 no site www.diretodaredacao.com

SÍNDROME DA SUBSERVIÊNCIA

Por Claudio Lessa

Um dos maiores males do Brasil – talvez o segundo maior, depois da catástrofe que é a educação – é a Síndrome da Subserviência. Acho que já falei isso aqui antes, mas não custa nada repetir. Especialmente quando se tem um exemplo tão interessante e oportuno de como isso deve ser tratado, dia após dia, até que o Brasil possa se tornar um país de verdade, e não um mero fazendão onde um auto-proclamado “mito” e seus aspones andam cabrestados por um bestalhão venezuelano e exaltam figurinhas carimbadas como o iraniano Nejadinho ou o cubano Fidel, El Coma Andante.

A Síndrome da Subserviência é um mal mundial, mas suas nuances e intensidade variam de país para país. Exemplo: nos EUA, bastou Obama ser eleito para sua mulher, Michelle, virar símbolo sexual para muitos… brasileiros. No Brasil, este é um reflexo de que o mal está enraizado desde os tempos coloniais e é difícil, quase impossível, de ser tratado. Seu sintoma principal é a transformação – muitas vezes súbita, assustadora – de uma pessoa supostamente normal num completo puxa-saco (o antigo “lambe-botas”, hoje o insofismável “baba-ovo”) de alguém que tem poder. Simplesmente isso. O poder (seja ele em qualquer grau) é o elemento que dá ignição à Síndrome da Subserviência.

A perda da consciência crítica é um perigoso indicativo da Síndrome. Em 2001, pouco depois de ter decidido voltar a passar uns tempos no Brasil, fui trabalhar na TV Senado como funcionário terceirizado. Uma das tarefas foi editar um especial sobre cinema, como pano de fundo para um festival realizado em Tiradentes (MG) que recebia o suporte de alguns senadores (e era usado por eles, claro, como trampolim político).

Um dos segmentos previa a inserção de uma entrevista com o então todo-poderoso senador José Roberto Arruda (mais tarde, vítima do painel eletrônico que o levou à renúncia e mais recentemente, de uma enxurrada de panetones que o levou à cadeia). Se minha memória quase centenária não falha, sua excelência tinha um projeto relacionado com algum tipo de incentivo reunindo produção de cinema e o público infantil. Na fita bruta, a repórter que o entrevistou fazia uma pergunta sobre o projeto e colocava o microfone na boca de sua então excelência. Durante todas as perguntas (2 ou 3, não sei ao certo) e mesmo com o microfone já apontado para sua boca, o então senador apertava os olhinhos, sorria com a boca fechada e movia a brilhosa carequinha de um lado para o outro, negativamente, sem dizer palavra.

Depois da tentativa infrutífera de uma entrevista, já que ele não abria a boca – sinal de que não sabia absolutamente do que se tratava, a repórter teve que abrir o jogo. Explicou que sua excelência tinha um projeto assim, assim, assado, cozido, que estava na comissão tal e qual etc, etc etc. Repetidas as perguntas, o então senador deu as respostas como se soubesse perfeitamente do que estava falando. Fim da entrevista.

Indignado, eu me virei para o editor de VT e disparei: “Esse cara não vai entrar no especial. Nem sabia do que se tratava!” Cauteloso, aparentemente já num adiantado estado da Síndrome da Subserviência (a clarividência é um dos sintomas mais agudos), o editor me respondeu: “Olha lá, Lessa, esse é o seu futuro governador…” Fui rápido no gatilho: “Meu não, negão! Só se for seu! Mas ele está fora, de qualquer jeito. O sujeito nem se interessa em se informar com antecedência sobre um assunto que diz respeito a ele, diretamente!”

Com efeito, o tal especial sobre cinema – que eu nem sei se acabou indo ao ar – não conteve uma palavra sobre o então senador José Roberto Arruda. Mas é bem possível que a invisível teia de aranha que permeia senadores, aspones e funcionários daquela Casa tenha feito chegar aos ouvidos de sua então excelência, de alguma forma, a decisão tomada por este reles editor – que, aliás, insatisfeito com as condições de trabalho e salário como terceirizado, acabou tirando o time de campo depois de uns dois ou três meses ali. Por algum motivo, nos encontros fortuitos com sua ex-excelência havidos a partir daí em eventos sociais (obs.: eu nunca me encontrei com ele antes do fato relatado acima) e especialmente depois do incidente da violação do painel e sua subsequente renúncia, posso dizer que, por coincidência ou não, o olhar que sua ex-excelência me dirigia era, digamos, muito pouco amistoso.

Refletindo no pós-fato, percebo que nunca fui acometido pela Síndrome da Subserviência, e que recebi uma espécie de dose de reforço da vacina contra o mal nos cerca de 20 anos em que morei nos EUA – uma terra em que alguns costumam dizer que “todos são iguais perante a lei, embora alguns sejam mais iguais do que os outros”. No entanto, um número muito maior costuma raciocinar (e se basear nela para agir) da seguinte forma – bem crua, aliás: do operário ao presidente da república, passando pelos políticos e capitães de indústria, big shots, celebridades, mendigos e ricaços etc, todos limpam o traseiro da mesma forma quando vão ao banheiro. Portanto… não há, realmente, muita diferença entre nós. Pense nisso.

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