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Deu no Direto da Redação
February 22nd, 2010 by claudio lessa

O artigo abaixo foi publicado em 21 fev 2010 no site www.diretodaredacao.com

SÍNDROME DA SUBSERVIÊNCIA

Por Claudio Lessa

Um dos maiores males do Brasil – talvez o segundo maior, depois da catástrofe que é a educação – é a Síndrome da Subserviência. Acho que já falei isso aqui antes, mas não custa nada repetir. Especialmente quando se tem um exemplo tão interessante e oportuno de como isso deve ser tratado, dia após dia, até que o Brasil possa se tornar um país de verdade, e não um mero fazendão onde um auto-proclamado “mito” e seus aspones andam cabrestados por um bestalhão venezuelano e exaltam figurinhas carimbadas como o iraniano Nejadinho ou o cubano Fidel, El Coma Andante.

A Síndrome da Subserviência é um mal mundial, mas suas nuances e intensidade variam de país para país. Exemplo: nos EUA, bastou Obama ser eleito para sua mulher, Michelle, virar símbolo sexual para muitos… brasileiros. No Brasil, este é um reflexo de que o mal está enraizado desde os tempos coloniais e é difícil, quase impossível, de ser tratado. Seu sintoma principal é a transformação – muitas vezes súbita, assustadora – de uma pessoa supostamente normal num completo puxa-saco (o antigo “lambe-botas”, hoje o insofismável “baba-ovo”) de alguém que tem poder. Simplesmente isso. O poder (seja ele em qualquer grau) é o elemento que dá ignição à Síndrome da Subserviência.

A perda da consciência crítica é um perigoso indicativo da Síndrome. Em 2001, pouco depois de ter decidido voltar a passar uns tempos no Brasil, fui trabalhar na TV Senado como funcionário terceirizado. Uma das tarefas foi editar um especial sobre cinema, como pano de fundo para um festival realizado em Tiradentes (MG) que recebia o suporte de alguns senadores (e era usado por eles, claro, como trampolim político).

Um dos segmentos previa a inserção de uma entrevista com o então todo-poderoso senador José Roberto Arruda (mais tarde, vítima do painel eletrônico que o levou à renúncia e mais recentemente, de uma enxurrada de panetones que o levou à cadeia). Se minha memória quase centenária não falha, sua excelência tinha um projeto relacionado com algum tipo de incentivo reunindo produção de cinema e o público infantil. Na fita bruta, a repórter que o entrevistou fazia uma pergunta sobre o projeto e colocava o microfone na boca de sua então excelência. Durante todas as perguntas (2 ou 3, não sei ao certo) e mesmo com o microfone já apontado para sua boca, o então senador apertava os olhinhos, sorria com a boca fechada e movia a brilhosa carequinha de um lado para o outro, negativamente, sem dizer palavra.

Depois da tentativa infrutífera de uma entrevista, já que ele não abria a boca – sinal de que não sabia absolutamente do que se tratava, a repórter teve que abrir o jogo. Explicou que sua excelência tinha um projeto assim, assim, assado, cozido, que estava na comissão tal e qual etc, etc etc. Repetidas as perguntas, o então senador deu as respostas como se soubesse perfeitamente do que estava falando. Fim da entrevista.

Indignado, eu me virei para o editor de VT e disparei: “Esse cara não vai entrar no especial. Nem sabia do que se tratava!” Cauteloso, aparentemente já num adiantado estado da Síndrome da Subserviência (a clarividência é um dos sintomas mais agudos), o editor me respondeu: “Olha lá, Lessa, esse é o seu futuro governador…” Fui rápido no gatilho: “Meu não, negão! Só se for seu! Mas ele está fora, de qualquer jeito. O sujeito nem se interessa em se informar com antecedência sobre um assunto que diz respeito a ele, diretamente!”

Com efeito, o tal especial sobre cinema – que eu nem sei se acabou indo ao ar – não conteve uma palavra sobre o então senador José Roberto Arruda. Mas é bem possível que a invisível teia de aranha que permeia senadores, aspones e funcionários daquela Casa tenha feito chegar aos ouvidos de sua então excelência, de alguma forma, a decisão tomada por este reles editor – que, aliás, insatisfeito com as condições de trabalho e salário como terceirizado, acabou tirando o time de campo depois de uns dois ou três meses ali. Por algum motivo, nos encontros fortuitos com sua ex-excelência havidos a partir daí em eventos sociais (obs.: eu nunca me encontrei com ele antes do fato relatado acima) e especialmente depois do incidente da violação do painel e sua subsequente renúncia, posso dizer que, por coincidência ou não, o olhar que sua ex-excelência me dirigia era, digamos, muito pouco amistoso.

Refletindo no pós-fato, percebo que nunca fui acometido pela Síndrome da Subserviência, e que recebi uma espécie de dose de reforço da vacina contra o mal nos cerca de 20 anos em que morei nos EUA – uma terra em que alguns costumam dizer que “todos são iguais perante a lei, embora alguns sejam mais iguais do que os outros”. No entanto, um número muito maior costuma raciocinar (e se basear nela para agir) da seguinte forma – bem crua, aliás: do operário ao presidente da república, passando pelos políticos e capitães de indústria, big shots, celebridades, mendigos e ricaços etc, todos limpam o traseiro da mesma forma quando vão ao banheiro. Portanto… não há, realmente, muita diferença entre nós. Pense nisso.


One Response  
  • maristelabairros writes:
    February 23rd, 2010 at 12:35 am

    Lessa. Meu pai, o velho Waldemar, lá das quebradas de São Gabriel, conhecida (desgraçadamente)como a Terra dos Marechais, e que cresceu ajudando o pai nas lidas de invernadas, é do tipo grosso mesmo. E ele sempre dizia que “na entrada e na saída, tirando o compadre Zeca que usa um saquinho pra fazer as necessidades pela barriga, que Deus ajude, todo mundo é igual”.
    Talvez por tanto ouvir esta grossura, eu tenha sofrido da síndrome contrária, que podemos chamar de Síndrome do Não Me faz de Boba. Ou seja: em todos estes tempos de jornalismo mais bati de cara contra chefias e poderosos do que era razoável pra garantir o pão nosso de cada dia amém.
    Quando vejo os coleguinhas chupando urtiga e dizendo que tá gostoso em nome de sei lá que manual de sensatez que alegam sempre, acho que tá na hora de eu cometer um número II do meu livro Chutando o Balde o Livro dos Desaforos.
    abraço - sem puxação de saco, tchê


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