(Texto publicado também, com pequenas alterações, no site Direto da Redação)
Por Claudio Lessa
Na era da tecnologia da informação, pode-se dizer que “a voz do twitter é a voz de Deus”? Na frase anterior, pode-se usar “facebook” ou mesmo “orkut”, ou qualquer outra mídia social em vez de “twitter”? Com a banda cada vez mais larga e o acesso cada vez maior de qualquer um a um computador, essas e outras perguntas começam a fazer sentido.
E se é assim – e se, também, fica cada vez mais clara, mais explícita, a distância que separa o mundo real do mundo político, onde cada cidadão comum não tem voz, enquanto a politicalha faz o que quer – então é verdadeira a análise bem-humorada que emplaca nas mídias sociais a partir das “pesquisas” que mostram uma ascensão mirabolante da maquete de Lulla na corrida ao Planalto, e que diz: “mais uns cinco ou seis crimes eleitorais e Dilma passa Serra nas pesquisas.”
José Serra acaba de assumir, com serenidade, que pretende, sim, disputar a cadeira número 1 do Executivo em outubro. As especulações contrárias eram muitas, e tinham as origens mais diversas. Do lado petralha, com sua candidata-poste em plena campanha ao arrepio da lei eleitoral, os argumentos beiravam o desespero. Sim, os petralhas sabiam (e sabem) que estavam agindo ilegalmente, ainda que com o beneplácito de um judiciário legalmente instituído, mas abaixo da crítica sob quaisquer termos. Dentro desse espírito de insegurança legal e política, tentavam atrair José Serra a qualquer custo para o embate fora de hora, como fator de segurança para dias futuros em que qualquer aperto da “justiça” abrisse a porta para que eles dissessem que estavam fazendo o mesmo que todo mundo estava fazendo, como é bem do feitio político-criminal no fazendão.
Do lado oposicionista em geral, abriu-se a não-questão de uma chapa “puro sangue”, onde o único companheiro de chapa viável em todo o planeta seria o mineiro Aécio Neves. Com Aécio fora da jogada por decisão própria, passou-se a ver e a anunciar a candidatura de Serra como algo fadado ao mais terrível fracasso – um quadro tácita e alegremente encorajado pelos petralhas, enquanto continuavam a ser desafiadas as leis eleitorais com as abundantes coberturas na tevê de “inaugurações” de canteiros de obras, de pontes de safena em doentes do SUS, de batizados de bonecas, de obras do PAC - Programa de Aceleração da Corrupção que jamais foram (ou serão) entregues prontas, e eram fabricadas as pesquisas que registravam a mirabolante ascensão de Dilma Duchefe, enquanto o Pilantra-Mor sempre achava um jeito de anunciá-la como sua candidata ao Planalto.
Todo esse castelo de cartas começa a ruir, e a corrida presidencial deve assumir contornos mais realistas de abril em diante. Para Aécio Neves, sua decisão de concorrer ao Senado não deve produzir o mesmo estrago na candidatura presidencial de José Serra como o que foi causado em 2006 com Alckmin, quando o então governador Aécio (montado num sólido esquema para reeleição estadual) virou as costas para o candidato de seu partido. Agora, Aécio precisa apoiar José Serra até mesmo para salvar a (futura) própria pele, no Senado.
Afinal de contas, ser um senadorzinho júnior de Minas Gerais num governo de minoria e oposição a uma presidente Dilma Duchefe, sem a chance de se tornar presidente da Casa e dourar sua pílula em estilo para uma eventual candidatura vitoriosa ao Palácio do Planalto certamente não deve estar nos planos do atual governador mineiro. Dessa vez, ainda que a hipocrisia mineira continue flamejante e a vontade de trair continue intensa, tudo indica que Aécio Neves terá que controlar as chamas e o ardor para fazer dupla com José Serra – cada um no seu galho. Essa, talvez, seja a maior lição a ser aprendida pelo PSDB desde que se viu na oposição: a necessidade de aprender a trabalhar em equipe – algo que, ao que parece, nunca lhe passou pela cabeça.