A gritaria da politicalha em torno da Ficha Limpa se baseia na premissa — falsa, diga-se desde já — de que essa nova lei não pode retroagir, isto é, não pode alcançar a pilantragem já cometida. “Só serve se for daqui para a frente”, esgoela-se o clube da folha corrida, desesperado para garantir a boquinha.
A interpretação do TSE é correta, embora a justificativa oferecida pelos juízes deixe a desejar. Claro que a Ficha Limpa pode (e deve) retroagir, e não apenas porque seu adiamento significaria uma “frustração” para a sociedade, como disse um deles. Afinal, a sociedade já está acostumada a sair perdendo em todas as frentes e essa seria apenas mais uma frustração num vale de lágrimas. Ocorre que o processo democrático é um trabalho em construção permanente, e que a adição de novos filtros é necessária para conter os abusos que são cometidos dia após dia por quem não tem alcance para buscar o melhor para o País, preferindo o lucro pessoal com o dinheiro que pertence a todos.
Neste trabalho de construção do sistema, é perfeitamente aceitável — ao contrário do que o jus esperneandi da politicalha clama — que a Ficha Limpa impeça criminosos de buscar guarida nas salvaguardas garantidas pelos mandatos conquistados junto aos eleitores, geralmente desavisados, manipulados, ignorantes ou sem alternativa.
A linha de raciocínio da politicalha que busca se manter à margem da lei à custa do eleitor é rasa: se baseia na cadeirinha de carregar bebês em automóveis, ou no exame médico para acesso às piscinas dos clubes. No caso da cadeirinha — equipamento que será exigido, sob pena de multa, a partir de agosto de 2010 –, o argumento é o de que o filho foi feito antes da exigência, e que portanto não se aplica. Para filhos feitos de agosto em diante, raciocina a politicalha, tudo bem (embora não descarte algum recurso junto ao STF). No acesso à piscina dos clubes, a desculpa é a mesma: a frieira do pé surgiu antes de a pessoa se associar ao clube, e por isso não pode ser usada como impedimento de acesso à piscina.
É preciso acabar com essa mentalidade do “é assim mesmo”, que prevalece no Brasil, para que as instituições possam ser aperfeiçoadas e o País possa, finalmente, se livrar dos corruptos que atrasam o desenvolvimento e o bem-estar de todos.