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Serra, Dilma e Tiririca
September 6th, 2010 by claudio lessa

Minha coluna no site Direto da Redação desta semana não foi publicada integralmente. Abaixo, o texto completo:

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A avalanche mediocrizante que tomou conta do Brasil, fazendo-o involuir a ponto de se tornar um mero fazendão, acabou criando condições inéditas e excepcionais para o surgimento de um processo eleitoral sui generis.

De um lado, um grupo de situação age criminosamente à luz do dia, sem se importar com qualquer tipo de repercussão adversa em relação a seus intentos. Como se sabe, essa “imunidade” à lei e à ordem tem sido pacientemente construída por meio da desconstrução do estado democrático de direito, tijolo por tijolo, enquanto o discurso exatamente contrário era trombeteado nos ouvidos dos habitantes do fazendão, dia sim, outro também.

De outro lado, há um grupo de oposição que, curiosamente, não tem discurso oposicionista. Entre outras sandices, o candidato tentou colar sua imagem à do atual desgovernante e chamou o atual ministro da Fazenda de “um homem correto” uma semana antes de explodir o escândalo da violação de sigilo fiscal de sua filha. Como se não bastasse, não explora as incongruências, mentiras, incorreções e desvios de sua adversária-poste.

A verdadeira campanha oposicionista tem sido feita via internet por alguns abnegados que não possuem, necessariamente, vínculo com o PSDB. Apenas estão fartos do status quo e querem ver mudanças. O ponto de interrogação fica exatamente aqui: por que os vídeos mostrados na internet – que realçam os desvios, os desmandos, as mentiras, as falcatruas, a safadeza – não são utilizados no horário eleitoral do candidato de oposição? Afinal de contas, os vídeos não procuram atacar a figura do atual presidente diretamente – e nesse curso de ação os produtores dos vídeos e o candidato concordam. Um bom exemplo de video que possui discurso político de oposição usando elementos estritamente jornalísticos você pode ver clicando neste link.

Abundam, no fazendão, os exemplos de erros e omissões do atual grupelho que aparelhou o governo federal com gente incompetente da pior espécie nos últimos oito anos. As imagens estão aí para quem quiser filmar: estradas destruídas, gente morrendo nas filas dos hospitais públicos, o caos da segurança. Por que não mostrar isso? Por que não botar o dedo na ferida e torcer? Não é o caso de bater de frente com a estratosférica popularidade do atual chefe do desgoverno, mas sim de mostrar, tim-tim por tim-tim, o que existe de errado e o que se pretende fazer para corrigir esses erros (além, é claro, de bater duro na tecla da incompetência enciclopédica da candidata adversária, incapaz de articular duas palavras sozinha, exceto quando equipada com um ponto eletrônico no ouvido).

A opinião pública já está mais do que ciente de que o candidato oposicionista dá de dez a zero na candidata-poste em termos de experiência administrativa, da mesma forma que conhece bem as realizações do candidato oposicionista na área da Saúde. Mas isso é página virada, é apenas um pé de página nesse momento. Há muito o que dizer de crítico e construtivo, e esse muito não está sendo dito.

Em meio a tudo isso, surge o “fenômeno” Tiririca, do qual ninguém – nem situação, nem oposição – se atreve a falar: quem é que financia esse idiota útil? De acordo com a excrescência em vigor conhecida como voto proporcional, quantos malas sem alça ele ajudará a eleger sem que o eleitor se dê conta, ajudando a desmoralizar de vez o Poder Legislativo?

A conclusão, a esta altura, é uma só: dentro desse clima de criminalidade em que está metida a campanha da situação e do clima de pusilanimidade que está metida a campanha oposicionista, é de se intuir com alguma dose de certeza: se os petralhas conseguem violar o sigilo fiscal de qualquer um sem correr qualquer risco de punição, o que não deve estar acontecendo com as pesquisas de intenção de voto, propaladas por toda a parte como sendo retratos definitivos do sentimento do eleitorado? E, nessa esteira, o que dizer das “invioláveis” urnas eletrônicas – o “exemplo brasileiro para o mundo” que o mundo rejeita?

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3 Responses  
  • maristela bairros writes:
    September 6th, 2010 at 1:54 pm

    Lessa. O totalitarismo que o PT plantou e vem fazendo crescer e criar raízes no Brasil mais que me apavorar me deixa deprimida. Saber que a patuléia troca a correção e a ética que deveria ensinar aos filhos por um crediário nas Casas Bahia me enoja mais do que ver banqueiros e especuladores irrigando a lavoura da sacanagem de Lula e Dilma para garantir seu acesso ao desmando total. Hoje estou muito, mas muito triste e com vontade imensa de desistir, calar e bancar a dona de casa dos anos 50, aquela dos anúncios, com laço de fita prendendo os cabelos, unhas imensas, espanador nas mãos, olhos de pin up. E deixar rolar. bj

  • Pablo writes:
    September 10th, 2010 at 9:40 pm

    Um momento de reflexão, Sr. Lessa.
    Quem esta desmoralizando o poder legislativo ?!!! Os politicos corruptos, gananciosos, despreparados ou o tiririca ? A população não tem nenhuma duvida quanto isso. Ou vc é ignorante ou um corregilionario opositor.
    Saudações. Se liga pois o povo não será sempre abestado.

  • Carina writes:
    September 23rd, 2010 at 3:00 pm

    A Crítica na Campanha Política

    *Djalma Pinto

    Uma situação delicada, vivenciada em campanha eleitoral, é freqüentemente objeto deste questionamento: desqualificar candidato adversário, durante o programa eleitoral, faz aumentar ou diminuir a sua quantidade de votos?

    Não é raro dizer-se: “o candidato parece fermento, quando mais batem nele, mais aumenta a intenção de voto em seu favor”. Na verdade, quem está no poder deve ser alvo de crítica daqueles que pretendem sucedê-lo. Isso é obvio e plenamente justificado, afinal, se não houvesse falha, no gerenciamento da Administração, o gestor não deveria ser trocado, após o primeiro mandato, por outro que o contesta.

    A questão parece situar-se no seguinte parâmetro: quando bater e como fazê-lo. Uma regra parece básica: o próprio candidato, criticando com veemência o adversário, acaba se transformando em sensor ou algoz do concorrente. O eleitor tende a não guardar boa impressão sobre o real objetivo de quem faz a opção pela crítica áspera, durante o processo eleitoral. A crítica, quando necessária sua utilização, deve ser suave, convincente, obrigando o adversário a oferecer resposta sob pena de ficar em situação desconfortável perante o eleitor, ansioso para indicar quem deve exercer o mandato.

    Um atestado típico de ineficácia da crítica reside no fato de manter-se o eleitor indiferente a ela, após insistente veiculação no horário gratuito, deixando o adversário convencido de nada ter que explicar sobre o assunto.

    Todo administrador deve prestar conta à população, sendo assegurado o direito de crítica que é inerente à democracia, ao pluralismo. Esse direito não pode ser transformado em mecanismo para denúncia infundada, que pode até configurar calúnia, injúria ou difamação. Deve ser explicado, inicialmente, ao eleitor que criticar não é fazer campanha suja. Campanha suja consiste em formular denúncia leviana. Mas se há, por exemplo, desvio de dinheiro público, má gestão em determinada área, isso deve ser explorado. O único problema é, insista-se, como e em que momento fazê-lo.

    O eleitor chega a ficar surpreso com a seguinte situação: durante os três anos de mandato, nenhuma denuncia é apresentada contra o gestor que postula a reeleição. As acusações somente surgem nos três meses que antecedem ao pleito. Entretanto, os candidatos eleitos pela oposição têm satisfação a dar aos seus eleitores. Na verdade, rejeitam estes os nomes indicados pela maioria. Não podem, pois, os integrantes das bancadas minoritárias deixar de lado a missão de fiscalizar a atuação dos governantes, curvando-se às benesses de quem detém o poder e não deseja ouvir críticas.

    No Brasil, vem se consolidando uma cultura segundo a qual quem faz crítica ao adversário, durante o programa eleitoral, perde voto. Alguns candidatos não conseguem disfarçar o descontrole ao receberem orientação de sua assessoria no sentido de que devem partir para o ataque em face da dianteira do concorrente atestada nas pesquisas.

    Na verdade, um dos objetivos do horário eleitoral gratuito é permitir que os candidatos mostrem aos eleitores seus programas de governo, suas propostas e as idéias que pretendem implantar, caso sejam eleitos. Mas também é espaço adequado para as críticas. Não é espaço para a prática de calúnia, difamação ou injuria. Com esses crimes não se confunde, porém, a crítica à forma equivocada, por exemplo, de como o candidato se portou à frente da Administração ou em determinada atividade privada.

    Quem postula o exercício da representação popular deve ter plena consciência de que agirá e atuará em nome do povo. Precisa, por isso, mostrar-se na sua inteireza. Não pode ocultar seus defeitos nem suas virtudes ao eleitor. O programa eleitoral não é o local adequado apenas para a exaltação das ações do candidato. Também as mazelas dos postulantes que lhes descredenciam para investidura no mandato devem ser exibidas para que o eleitor possa fazer um juízo correto sobre quem pretende governá-lo. Imagine-se, por exemplo, um candidato que assassinou duas pessoas, em determinada localidade, sendo, porém, literalmente omitida a abordagem deste fato — gravíssimo sob todas as óticas —, no seu programa e nos dos próprios adversários durante todo o transcorrer da propaganda eleitoral.

    O eleitor chega ao dia do pleito sem uma noção sobre o real perfil de quem deseja ser escolhido como seu representante. Não deve, portanto, a propaganda eleitoral ser transformada em palco das conveniências, onde são ocultados os ilícitos dos candidatos, levando o corpo eleitoral à falsa conclusão sobre a idoneidade dos participantes da disputa pelo poder.

    Se o candidato cometeu crime, esse fato, sob hipótese alguma, pode ser omitido no horário gratuito. O eleitor deve sim ser informado sobre isso, sob pena de ser vitima de propaganda enganosa. O direito de resposta garante o contraditório, cabendo ao cidadão avaliar a denúncia e a resposta para melhor escolha entre os candidatos.

    * Djalma Pinto é advogado, com atuação em direito eleitoral e ex-procurador geral do Estado do Ceará e autor do livro Marketing, política e sociedade, pela Cia. dos Livros Editora.


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